24 horas sem ingerir nada, você consegue?

Copo vazio

Sou uma pessoa que gosta de expandir os conceitos que temos em relação a determinadas experiências em nossas vidas. Acho muito legal quando descobrimos que podemos ir além de uma ideia que tínhamos dentro da nossa cabeça e percebemos depois o quanto nossa crença determina os limites de onde podemos chegar. Foi um pouco o que aconteceu em relação ao jejum.

Quase todas as religiões tem alguma prática ou ritual de jejum. Contudo, conheço poucas pessoas que efetivamente realizam ou realizaram este costume milenar em diversas tradições. Sempre via essa possibilidade como algo distante e até impossível na minha vida. Quando decidi de fato levar o experimento a frente, várias frases vinham à mente. “Isso é muito perigoso!”, “Você não vai aguentar!”, “Você vai desmaiar e ficar caído no meio da rua!”, e assim por diante. Em nenhum momento eu poderia imaginar que ao final das 24 horas eu me sentiria limpo e bem disposto, com uma espécie de clareza mental e percepção ligeiramente mais aguda. Isso não é uma fantasia da minha cabeça, nas vezes que repliquei o processo, essa experiência foi recorrente.

Em nenhum momento eu poderia imaginar que ao final das 24 horas eu me sentiria limpo e bem disposto, com uma espécie de clareza mental e percepção ligeiramente mais aguda.

“Se o ser humano ficar sem beber água, em 3 ou 4 dias ele morre.” Já ouviu essa frase alguma vez? Pois é, eu também pensava muito nela e era o que me gerava um pouco de insegurança. Entretanto, nas primeiras vezes optei por não ingerir NADA, nem mesmo ÁGUA, durante as 24 horas do meu jejum. Lembro-me da minha euforia na hora do almoço, sem contar para ninguém dos meus colegas de trabalho que estava fazendo aquilo. O que foi estranho, na verdade, era que eu não sabia exatamente o que fazer ou onde ir durante as minhas duas horas de almoço. É claro que não fui com a galera. Saí, dei uma volta no quarteirão e voltei para a frente do computador. Confesso que ainda estava um pouco com fome, mas foi muito melhor do que me torturar tendo que assistir todos comerem.


Se você acha loucura ficar 24 horas sem ingerir nada, talvez vai achar mais louco ainda percorrer 900 km a pé.


Depois de umas 6 horas sem comer nem beber nada, a fome diminuiu e ficou bem mais suportável. Meu corpo ficou feliz com aquele descanso de não ter que digerir nada durante algumas horas. Pense comigo, se não entra alimento ou líquido no estômago, não ocorre a produção de suco gástrico e depois de um tempo, a boca também não fica salivando (expectativa da comida que vai chegar na sequência). Portanto, minha sensação de bem estar começou a aumentar à medida que o tempo passava, pois o corpo ia se acostumando e a apreensão que eu sentia ia diminuindo.

Já estava há mais de 10 horas sem ingerir nada.

Neste dia, eu havia decidido tomar um café da manhã gostoso (sem excessos!) e ficar até o dia seguinte, ou seja, até o próximo café da manhã sem ingerir nada. Assim, quando chegasse do trabalho, se estivesse cansado, dormiria e não teria que me preocupar. Quando cheguei em casa, em torno de 19h30min, notei que estava incomodado e percebi que era a ausência de qualquer gosto na minha boca. Já estava há mais de 10 horas sem ingerir nada. Resolvi então escovar os dentes para pelo menos sentir o gostinho de pasta estimulando o meu paladar. Foi maravilhoso!

Em seguida assisti um pouco de televisão (não tenho este hábito) para me distrair e não pensar se ia dar conta. Minha vontade, naquele momento era que o tempo passasse rápido para eu dormir logo e “ficar livre” do meu experimento. Hoje, quando penso, gostaria de ter ficado mais tranquilo e feito tudo “normalmente”, mas sei que estava um pouco ansioso pela conclusão e a certeza de que tudo ficaria bem.

Dormi no horário de costume, não me lembro exatamente, mas algo entre 22h e 22h30min e acabei acordando cedinho, cheio de energia. Devia ser umas 5h30min quando acordei me sentindo super limpo. Era como se tivesse tomado um banho por dentro. Dava até dó de voltar a “sujar” meu organismo de novo com a alimentação. Sei que parece loucura, mas era esta a minha sensação naquele momento. Fiz um pouco de Yoga e em seguida tomei meu café da manhã tradicional com iogurte, banana, passas, granola e mel. Tomei duas xícaras de café depois um banho e saí para trabalhar.

O mais difícil de tudo foi a falação incessante dos meus pensamentos.

É claro que não saí no dia seguinte com super poderes, mas estava muito feliz e orgulhoso de ter ultrapassado aquilo que acreditava ser impossível para mim. Na verdade, fisicamente não foi tão difícil assim, o mais difícil de tudo foi a falação incessante dos meus pensamentos. No momento em que me senti mais seguro, quando percebi que não ia acontecer nada de errado, a tagarelice da mente diminuiu e eu consegui até curtir um pouco o processo.

 


5 conclusões deste meu pequeno experimento:

  1. Nosso corpo é capaz de muito mais do que achamos ser possível.
  2. Nós não precisamos de ingerir tanta comida como acreditamos ser necessário.
  3. Nossas crenças nos impedem de experimentar e formar uma opinião própria. Acabamos reproduzindo muitas coisas que outras pessoas falam sem vivenciar o fato.
  4. Nossa mente nós dá todas as justificativas imagináveis para não sairmos da nossa zona de conforto.
  5. Boa parte dos nossos gastos de energia é para digerir os alimentos de baixa qualidade nutricional que não deveríamos comer de jeito nenhum. A limpeza ajuda na eficiência do organismo.

 


Livro A Dieta dos 2 Dias
O livro fala sobre o método do jejum intermitente.

Se você acha muito radical o experimento, no livro A Dieta dos 2 dias (5:2 Fast Diet) o autor fala sobre uma dieta que durante apenas 2 dias da semana você reduz para 25% a quantidade de alimentos que está acostumado a ingerir. Com isto, o corpo entra em um estado de escassez e estimula a produção de corpos cetônicos que auxiliam na obtenção de energia através do catabolismo (falta de carboidratos e a mobilização do organismo para queimar os estoques de gordura). Gostaria de deixar claro que não sou um especialista, apenas um curioso e experimentador de acordo com minhas intuições. Segue o link com o livro para quem tiver interesse:

http://www.saraiva.com.br/a-dieta-dos-2-dias-the-fast-diet-4985011.html


 

Ainda não acredita?

Assista à essa palestra do TED (em inglês) falando sobre como o jejum reforça a potência do cérebro e pode até prevenir doenças como Alzheimer e Parkinson.

Ele conclui a palestra dizendo:

Você vai perceber que nos dias que não come tanto acaba sendo mais produtivo.

4 comentários em “24 horas sem ingerir nada, você consegue?

  1. Quero tentar! Seus textos estão cada vez melhores! Facil leitura e compreensão!

    1. Oi Ruan, que massa! Ué, dá uma lida e procura saber mais um pouco, mas não fica com medo não. É uma coisa acessível para todos, mas requer um certo preparo, pois a nossa cabeça vai te dar todos os motivos pelos quais aquilo não vai funcionar. Que bom que você gostou dos textos. Vem mais por aí!

  2. Isso sim é conteúdo de qualidade. Seu relato inspira a reflexão e me deu boas ideias. Um beijo e vou estar sempre por aqui.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *