CORRER, ANDAR, CORRER: A história de como eu consegui fazer o meu melhor tempo em uma prova de corrida ANDANDO

Bom, eu sei que você deve estar incrédulo, então eu já vou começar de cara com os fatos: meu melhor tempo em uma meia maratona (21 km) era 1 hora e 48 minutos. Detalhe importante: foi uma época onde eu estava mais magro e realizando treinos mais constantes de 3 a 4 vezes por semana. Então, numa prova em 2015, com o método RUN – WALK – RUN, eu consegui abaixar o meu melhor tempo em 2 minutos, sem fazer esforço nenhum e o “pior” foi que terminei a prova inteiro, sem nenhuma câimbra ou desgaste como em edições anteriores.

Sendo assim, deixe eu contar a história de como tudo aconteceu.

Eu costumava escutar um podcast chamado Marathon Training Academy que entrevistava corredores e profissionais relacionados, dando dicas de como treinar para uma maratona (Ainda não realizei este grande sonho. Por enquanto foram várias meia-maratonas.). Em um episódio específico, eles entrevistaram um treinador chamado Jeff Galloway que criou o método acima. No podcast ele descrevia como funcionava e para quem era mais indicado. Fiquei com aquilo na cabeça, mas nunca imaginei que um dia iria fazer isto.

Quando andamos, liberamos o ácido lático acumulado nos músculos durante o esforço intenso da atividade física.

O método é muito simples: você corre e intercala alguns momentos de andadas no meio da corrida. Contudo, não pode ser da sua cabeça, tem que ser cronometrado e cada nível de corredor pode fazer tempos diferentes no seu percurso. Segundo ele, quando andamos, liberamos o ácido lático acumulado nos músculos durante o esforço intenso da atividade física. A tendência desse ácido lático em uma prova mais longa é ir acumulando até o ponto em que pode ocorrer um câimbra ou fadiga muscular. Assim, em teoria, nos sentiríamos menos cansados e mais dispostos durante a corrida. É claro que é super importante fazer alguns testes antes e ver como o seu corpo se adapta a metodologia.

Faça o que eu digo e não o que eu faço…

Era 2015, eu estava treinando 3 vezes por semana de 7 a 8 km apenas. Não tinha feito nenhum treino longo e na edição anterior da meia maratona eu tinha sofrido caimbras fortíssimas, quase abandonando a prova no meio. Foi então que, no sábado à noite, eu decido pesquisar um método esquisito que eu tinha escutado num podcast há não sei quanto tempo… Devorei o site inteiro. Li tudo o que pude naquele tempo que tinha. Fui dormir pensando na vergonha que iria sentir no dia seguinte quando começasse a andar bem no meio de uma prova de corrida! Mesmo com câimbras na prova anterior eu não desisti e não parei. Imagine isto e veja que contradição.

Fui dormir pensando na vergonha que iria sentir no dia seguinte quando começasse a andar bem no meio de uma prova de corrida!


Link para o site (em inglês):
http://www.jeffgalloway.com/training/run-walk/


Este é um segredo sobre mim que muitas pessoas não entendem: eu tenho energia e garra para suportar um desafio intenso como, por exemplo, terminar uma corrida mesmo sentido muita dor. Entretanto, eu não faço isto por orgulho ou exigência. Eu faço com o objetivo de experimentar e me observar enquanto estou realizando aquela determinada atividade, mesmo que seja a dor. O fato de não ter um orgulho associado me liberta para desistir ou não, quando eu quiser.

O fato de não ter um orgulho associado me liberta para desistir ou não, quando eu quiser.

Voltando ao relato da corrida, o maior desafio então, seria aguentar a vergonha e andar, mesmo sem precisar. A única solução seria não me preocupar com os outros participantes e fazer a corrida no meu ritmo. Defini para mim que manteria a seguinte sequência:
7 minutos correndo / 30 segundos andando / 7 minutos correndo e assim por diante.

Dada a largada, comecei a olhar para o meu relógio constantemente. O coração disparado com medo da vergonha que eu iria sentir. Eu não ia desistir de andar! Eu escolhi aquilo. Queria me colocar em uma posição que ninguém iria entender, mas eu tinha um objetivo claro: descobrir se aquele método funcionava e como seria a corrida.

7:00

Primeira andada. Quanta vergonha. Via algumas pessoas me passando e olhando para trás sem entender. Ainda não conseguia pensar direito.

7:30

Ainda bem que voltei a correr. Sempre começo a prova cheio de energia, me senti como um cavalo preso no cabresto, forçado a parar e esperar seu dono.

14:30

Agora é hora de observar os outros participantes e tentar achar alguns que estão num ritmo parecido com o meu. Qual a distância eu perco quando ando 30 segundos? Será que eu consigo recuperar esta distância nos próximos 7 minutos.

15:00

Volto a correr. O corpo está bem a vontade e percebo que os corredores que “marquei” foram alcançados. Muito bom, não estou “perdendo” nada. Agora é seguir com o plano.

30:00

Começo a acostumar com o ritmo da prova e percebo que meus rivais imaginários já ficaram bem para trás. Suspeito que o método pode funcionar comigo.

1:00:00

Neste momento eu já estaria sentindo um certo cansaço e meu ritmo já teria caído. Na corrida anterior, foi quando começaram as câimbras.

1:14:30

Momento mais hilário da prova. Volto a andar quando, de repente, passa um corredor ao meu lado gritando: “Vamos! Não desiste não!”. Seguro o cabresto e aguardo o momento da 2a largada.

1:15:00

Solto as rédeas e deixo o trote solto. Ultrapasso o adversário com facilidade que fica sem entender de onde vem tanta energia de uma pessoa que estava andando e “quase desistindo”. Não olho para o lado, não faço graça nem procuro criar rixa. Sorrio e fico feliz.

1:30:00

A corrida já está quase no fim. Um certo cansaço (normal) começa a bater. As andadas devem ser cronometradas para não deixar a fadiga se impor.

1:37:00

Última andada. Contato visual estabelecido. Agora é só soltar para finalizar.

1:46:19 – Linha de chegada

Olho para o relógio e mal acredito no tempo que fiz. Continuo a andar, sem pressa de assentar. Nem parece que corri 21 km. Sinto uma enorme satisfação por ter arriscado e acertado mais do que eu esperava. Me sinto orgulhoso por ter superado minha vergonha de gente que eu não conheço para validar aquela ideia louca que quase ninguém iria acreditar.

 

Moral da história e reflexão filosófica

Quantas vezes não escutamos aquele ditado popular “devagar se vai ao longe”. Contudo, devagar se vai ao longe DE-VA-GAR. E se eu não quiser ir devagar, isso quer dizer que eu não vou conseguir ir longe?

Quando a gente faz uma coisa devagar, muitas vezes nos entediamos e acabamos desistindo logo de uma determinada tarefa, justamente por estar muito devagar.

A corrida me fez pensar em uma frase menos poética, mas mais verdadeira para mim: intercalando se vai ao longe. Quando a gente faz uma coisa devagar, muitas vezes nos entediamos e acabamos desistindo logo de uma determinada tarefa, justamente por estar muito devagar. Costumo dizer que um grande remédio para pessoas mais analíticas e que pensam muito é fazer as coisas um pouco mais rápido do que o ritmo habitual. Assim elas tem menos espaço para ficar pensando demais e tem que prestar atenção no que estão fazendo. Alternar entre rápido e devagar também exige esforço de áreas diferentes do cérebro. Tem um livro muito bom do Daniel Kahneman que fala justamente sobre isto: Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar.

Outra história que escutamos desde pequenos é a parábola da Lebre e do Jabuti (Eu sempre pensava: “Ah, o coelho e a tartaruga…”) onde o animal mais rápido se cansa e o mais lento acaba vencendo. A linha de pensamento é a mesma do ditado popular, se você for persistente vai ganhar no final. O que eu acho interessante de pensar hoje é o seguinte: qual criança em sã consciência quer ser o Jabuti? Qual adulto em sã consciência quer ser o Jabuti? Eu não quero. Pode ser que eu tenha que batalhar por um objetivo a longo prazo e eventualmente as coisas aconteçam de maneira mais lenta. Mas, fazer tudo na velocidade do Jabuti é fracasso certo para mim. Se não houver alternância nos ritmos da vida e eu não me preparar para aceitá-la, certamente serei vencido pelo meu cansaço ou pelo meu tédio no meio do percurso.

Se não houver alternância nos ritmos da vida e eu não me preparar para aceitá-la, certamente serei vencido pelo meu cansaço ou pelo meu tédio no meio do percurso.


Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar.

Este é um livro que demonstra como temos 2 sistemas principais de pensar, um mais rápido e automático e outro mais lento e reflexivo. O autor demonstra como muitas vezes tomamos decisões baseadas mais em um sistema do que o outro e como isso influência nossas vidas. Vários exemplos interessantes.

Um comentário em “CORRER, ANDAR, CORRER: A história de como eu consegui fazer o meu melhor tempo em uma prova de corrida ANDANDO

  1. Flips!!!!!!

    Sem palavras estou eu agora. Perfeito raciocínio, ainda mais intercalado com uma vivência incrível proporcionada pela corrida. Sou profundamente partidária do rápido e devagar. E justamente agora, na época mais intensa da minha vida, pela quantidade de tarefas mesmo, eu me vejo fazendo exatamente isso. Intercalando ritmos… e dando conta do riscado. Adorei. Continue escrevendo, não pare! Mesmo quando tiver que reduzir a intensidade. Um beijo grande!

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