900 km a pé: uma peregrinação de 40 dias e a experiência mágica de se reconectar com a vida

(Lembre-se de habilitar as legendas em português na janela do vídeo)

Tudo começa com uma imagem, uma imagem mental.

Assim eu começo minha tentativa de realizar um diário visual (pretensão mais humilde do que um documentário) do que foi o meu percurso do Caminho de Santiago de Compostela. Começo do fim pois o mais interessante não é a chegada e sim todo o percurso e sonhos para concluir essa difícil jornada.

Não sei ao certo quando minha imagem mental começou, mas lembro-me de ter escutado algumas pessoas falando sobre o Caminho e também de ter ido numa projeção de slides (Faz muito tempo isso, imagine só?!) de um amigo de um amigo que tinha acabado de chegar de viagem. É interessante como o que me marcou mais não foram as imagens e sim a energia dele falando sobre as experiências que tinha vivido. Foi um daqueles momentos em que a gente tem aquela sensação muito forte: “Eu quero viver isto algum dia!”.

Abraçar ideias um pouco “loucas” é que me ajudam a permanecer sano e ver que a loucura está naqueles que nunca ousam arriscar.

Bom, mais de 10 anos se passaram entre o desejo a realização, mas aquela pequena semente que foi plantada fico ali esperando um momento oportuno para que um dia eu pudesse percorrer o Meu Caminho. Nesse sentido, o tempo, ou a demora para a realização não importa, pois a intensidade com que foi impresso dentro do meu ser me trazia uma certeza de que um dia eu também passaria por aquilo que o amigo descrevia.

A pergunta que eu sempre escuto quando começo a contar alguma história é POR QUÊ? “Mas por quê você fez isto?”. O que está implícito muitas vezes é “por quê você fez está loucura?” e a resposta que eu vou dar é se sou louco ou não. Eu não sou louco, nem nenhuma das centenas de pessoas que conheci durante o percurso. Muito pelo contrário, abraçar ideias um pouco “loucas” é que me ajudam a permanecer sano e ver que a loucura está naqueles que nunca ousam arriscar uma jornada que te leve ao desconhecido.

Mesmo assim, não vou fugir da resposta. Tiveram 2 motivos principais que me levaram a finalmente ir atrás desse desejo naquele momento:

  1. Meu irmão havia morrido há alguns meses apenas.
  2. Eu defenderia minha dissertação de mestrado em Paris e teria um tempo livre antes de decidir minha vida e ter que voltar para o Brasil.

O interessante de fazer uma edição com vídeo e áudio é que você escuta tantas vezes as falas das pessoas que começa decorar os trechos e, depois de um tempo, acaba tornando aqueles pensamentos seus.

Tive muitas dúvidas até tomar a decisão. Não tinha nem a certeza que conseguiria defender minha dissertação, quanto mais andar 900 km a pé. Contudo, sabia que uma vez tomada a decisão, toda minha energia seria direcionada para a execução daquela tarefa. Sei que sou o tipo de pessoa que adora pensar, analisar e planejar as coisas. Fico pensando, pensando, sonhando… Entretanto, quando eu não realizo, vem aquela frustração, pois eu sei que fiquei idealizando demais e não coloquei em prática.

Nesses casos, gosto muito quando vem aquela “urgência” e te força a tomar uma atitude e fazer alguma coisa. Tem um texto muito legal do Henfil que ele fala que a criatividade é um Doberman atrás de você. Então, dentro daquelas circunstâncias, soltei o cachorrão! No meu caso, o cachorrão era a iminente volta e a possibilidade da minha tristeza e meu luto (chorei todos os dias durante mais de um mês) impedirem a realização daquilo que eu considerava uma vontade da minha alma (Isto é sagrado!).

Quando voltei para o Brasil no final de 2008, fiquei meses editando e revendo vários vídeos que eu havia gravado. Muito erros, muita inexperiência e amadorismo nas filmagens, mas muitas lembranças das conversas e momentos incríveis também! O interessante de fazer uma edição com vídeo e áudio é que você escuta tantas vezes as falas das pessoas que começa decorar os trechos e, depois de um tempo, acaba tornando aqueles pensamentos seus.

(Lembre-se de habilitar as legendas em português na janela do vídeo)

Eu fiz o caminho para me reconectar.
Me reconectar com a vida, me reconectar com quem eu sou.

Quando decidi fazer mestrado na França, sabia da possibilidade de continuar em seguida e fazer um doutorado também. Em parte, esse era o plano. Contudo, após o que aconteceu, percebi que eu precisava de um tempo, de um espaço para conseguir processar tanta emoção. Algumas vezes estamos muito próximos ao problema e não conseguimos ter o distanciamento necessário para tomar a decisão mais adequada de acordo com o que é importante para nós. Tirei essa fala da Timea (moça que fala no vídeo anterior) pois ela servia para mim como um luva. Eu precisava viver alguma coisa completamente nova e diferente de tudo que já tinha experimentado e então decidir se permaneceria na França ou voltaria para o Brasil e terminaria o meu luto entalado.

Tanta dor e alegria ao mesmo tempo, foi assim o tempo inteiro. Sentia a poesia da vida: a felicidade da conquista com as novas experiências e o buraco da ausência dilacerante que a perda de um ente querido nos causa. Como é possível estar feliz com uma certa tristeza? Como pude me autorizar a sentir simultaneamente sentimentos tão opostos? Para mim, a morte do meu irmão foi assim. Talvez por esses e outros sentimentos ambíguos eu senti tanta dor nos meus joelhos no início da caminhada. A questão é que mesmo com a preparação anterior que fiz antes da peregrinação (eu caminhava 10 km por dia em Paris) não havia me preparado para balancear meu corpo com o peso da mochila na caminhada. Mas é claro que esse desequilíbrio e desatenção não era apenas no nível concreto da matéria. Eles traduziam como eu estava emocionalmente em um nível mais sutil.

Quando você acha que não pode piorar, tome cuidado,
logo ali na frente ainda pode ter muita lama!

 (Áudio contando a história das dores, mochila e lama)

 

Hoje, quando penso sobre tudo o que vivi, fico procurando uma maneira de sintetizar para mim e também contar para outras pessoas sobre o que foi mais importante ou marcante. Foram tantas histórias que é quase como se fosse uma vida dentro de uma vida.

trecho-diario-ultimo-dia
Trecho do meu diário no último dia antes de chegar a Santiago de Compostela

Talvez, uma das coisas que achei mais incrível foi a simplicidade de precisar de muito pouco para viver e estar feliz.

Eu estava presente na experiência de cada momento. É engraçado como a redução de posses materiais aumentou minha capacidade de estar inteiro! Eu tinha comigo uma mochila de 11 kg com 3 ou 4 mudas de roupa, comida para meio dia de caminhada, um chinelo, um tênis uma necessaire, uma lanterna e mais algumas coisas. Menos é mais! Eu costuma ficar lembrando quantas vezes viajei para a praia e levei uma roupa para cada dia + uma variação para sair à noite… E quão infeliz eu ficava, pois estava preso numa série de comportamentos da “turma” e naquela vontade de ser “o bonitão da bala Chita” (Cada um com a sua vaidade!).

Quando escrevi este texto, queria chegar na conclusão mais foda do mundo! Pelo menos, na mais foda do mundo para mim. Mas depois de muitas edições e releituras, percebi que o caminho sempre continua. Sempre vou lembrar de outra história ou um fato que poderia ter narrado melhor, falando mais sobre este ou aquele detalhe.

Portanto, meus conselhos, baseados na minha experiência, são muito simples:

  1. Não tem jeito da gente se preparar para tudo (na vida e no Caminho). El camino se hace al andar (O caminho se faz ao andar).
  2. Faça um peregrinação ao menos uma vez na vida. Se não pode ir para a Espanha, faça o Caminho da Luz em Minas Gerais.
  3. Caminhar é um dos atos que nós faz humanos. Nós subestimamos a importância da marcha que uma caminhada de mais de uma hora nos proporciona.
  4. Não importa a sua idade, vi senhores e senhoras de mais de 70 anos (algumas vezes com o peso acima do desejável) caminhando no seu ritmo e com suas metas.

 


Paixão por Mapas

Quando estava em Paris, realizei meu mestrado em projetos multimídia. Sempre tive um enorme interesse em arte, design, fotografia e tecnologia. Pesquisei muita coisa sobre arte digital e vi diversas exposições e experimentações de artistas, fotógrafos e designers. O mapa abaixo foi um pequeno registro de todas as cidades que passei. Eu desenhei as bandeirinhas (com o símbolo do caminho) e exportei em PNG para personalizar o meu próprio mapa no Google Maps. Na época era uma novidade, mas eu continuo achando super bacana.

O mapa me faz lembrar quando era pequeno, pois tinha um quadro de um Mapa Mundi no meu quarto e ficava sonhando em conhecer cidades e lugares diferentes pelo mundo (Agradeço muito a minha mãe por ter plantado essa sementinha!).

Mapa com todas as cidades que passei desde a fronteira da Espanha com a França, até o mar.

Outras histórias interessantes:

  1. Dia em que fui perseguido por 3 cachorros grandes:
    (áudio a ser gravado)
  2. Ausência de música:

Sigur Ros – Hoppipolla
https://www.youtube.com/watch?v=KbPWi1gshzI

Jimmy Cliff – I Can See Clearly Now
https://www.youtube.com/watch?v=uyrAhLIbDHM


Galeria de Imagens

Algumas fotos do percurso. Clique em qualquer miniatura para ampliar e navegue com as setas do teclado.

4 comentários em “900 km a pé: uma peregrinação de 40 dias e a experiência mágica de se reconectar com a vida

  1. Nó, Fi, fiquei emocionada com o seu depoimento e vendo-o entrar no mar em Finisterre.

    Parabéns! Sinto orgulho de você!!!
    Beijos,
    Müther

  2. Felipe… então…

    Lembro-me bem do Caminho, narrado por você. Acho que este é um dos seus dons: encontrar palavras para aquilo que não se pode traduzir. Nunca iremos alcançar o que foi vivido por você – talvez nem você mesmo. Mas chegamos perto, viajamos junto, catamos uma pedra na estrada pra construir algo dentro de nós também. Obrigada. São valiosos os instantes que passo por aqui.

    1. Oi Nivs,
      Se todo relato é sempre uma ficção, estamos sempre traduzindo não é mesmo?! Estou descobrindo em mim essa voz do narrador. A vontade sempre existiu, mas a prática é que vai dando mais forma. Muito cedo ainda para qualquer conclusão. Vamos seguindo.
      Bjos.

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