A luz vem de dentro – 10 dias em silêncio meditando 10 horas por dia (parte 3)

DIA 7

A luz vem de dentro

Sigo minha rotina concentrado. Sem julgamentos: medito assentado na cadeira do quarto, ajoelhado no colchão ou assentado com pernas de índio. No horário de descanso depois do almoço aproveito para deitar e mantenho a mesma concentração. A técnica já está introjetada. Se sinto vontade de cochilar, me autorizo a esta pequena indulgência. Sei que meditar deitado não funciona para mim, pois havia tentado fazer isto no segundo dia e acabei dormindo em 5 minutos. Apaguei de barriga para cima e comecei a roncar tão forte que acordei com meu próprio barulho!

Meditar é igual a qualquer outra atividade física: quando você não ainda aprendeu direito, não é tão divertido.

O dia segue em paz e o corpo dolorido já não incomoda tanto. Meditar é igual a qualquer outra atividade física: quando você não ainda aprendeu direito, não é tão divertido. Depois, quando se vai pegando o jeito é que se vai tomando mais gosto pela coisa. Como tudo, antes de ser fácil, é difícil. O processo de aprendizado é assim. Me lembro, por exemplo, da minha filha começando a andar. No início, apenas se levantar e ficar apoiada na parede já era uma vitória. Nem lembramos mais que caminhar, um dia, foi difícil para nós também. Portanto, procuro sempre ter essa mentalidade comigo: se eu me esforçar o suficiente para aprender aquilo que quero, aquela atividade, um dia, vai se tornar fácil.

A técnica Vipassana tem uma coisa muito legal: quando você se entrega, de verdade, deixando os APEGOS e AVERSÕES às sensações boas ou ruins apenas passarem, o fluxo de energia vai ficando mais livre. Eu conseguia observar determinadas dores ou tensões surgirem, ficarem poucos minutos e quando eu voltava minha atenção para a mesma região, aquilo já tinha sumido. É lógico que haviam momentos em que eu “agarrava” um pouco, pois o incômodo era maior do que uma simples “dorzinha”. Mas eu ficava ali, imóvel, apenas observando quando aquela sensação iria passar. Foi então que tive a experiência mais prazerosa de todo o retiro.

Uma energia intensa descia pelo topo da minha cabeça. Era muito forte. De repente comecei a enxergar tudo branco. Uma sensação de paz e prazer enormes.

 

Seria a iluminação? Claro que não, pensei. Ainda tenho muita coisa para aprender nessa vida. Será que estou ficando louco? Também não, estou mais lúcido do que o normal. Já passou das 18:30 e estamos em julho. É inverno. De onde vem essa claridade toda? Será que abro o olho para conferir? Se abrir pode ser que corte “o barato”. Bom, então não vou abrir o olho e vou continuar aqui “curtindo esse negócio”! Que coisa mais linda! Como faço para ter isso de novo? Será que se eu contar para outras pessoas elas vão acreditar? Como descrever sensações muito mais amplas do que as palavras dão conta? Quero continuar neste lugar. O corpo está leve e meu mundo está em paz.

São 19h. Pausa para intervalo rápido antes da palestra do professor. Olho para os outros participantes. Teriam eles sentido as mesmas sensações que eu tive ou ainda estariam presos no inferno das dores dos primeiros dias? Ainda tenho que esperar mais 2 dias e meio para poder perguntar.

Eu ainda estou aqui.

Meu corpo já não dói tanto.

Minha mente tagarela já não reclama mais.

Eu estou em paz.

 

DIA 8

Permanecer no bom

Ainda impactado pela experiência do dia anterior, fico buscando compreender o sentido de tudo aquilo. Alterno entre pensamentos místicos e científicos. Procuro encontrar respostas metafísicas para documentar na minha memória tudo aquilo que vivi. A sensação de calma e paz permanece juntamente com um grande conforto de estar dentro do meu próprio corpo.

A sensação de calma e paz permanece juntamente com um grande conforto de estar dentro do meu próprio corpo.

Na parte da tarde, procuro repetir o processo para sentir a mesma energia novamente. Depois de algumas tentativas sem sucesso, desisto de ficar forçando a barra. Como todo iniciante, acabo caindo justamente no APEGO à sensação prazerosa. Queria fabricá-la a qualquer custo, pois foi tão intenso e maravilhoso! Mas o mestre já advertia: tudo é passageiro. Tanto o que é ruim quanto o que é bom também. Me senti infantil e bobo por ter caído na pegadinha da minha minha própria mente.

Start again! Foi bom? Foi ruim? Não importa. Apenas comece novamente. E em pouco tempo eu já estava recuperado e já tinha virado a página do apego, frustração ou avidez. Já estava no fluxo novamente, sem me identificar com aquilo que sentia. Era quase como se eu houvesse me tornado um observador de mim mesmo. “Tô ficando bom nesse negócio!” – logo pensei.

 

Bad Trip

Foi então que, mais no final do dia, na última meditação antes da palestra eu tive uma bad trip (“viagem errada”). Eu comecei a pensar na pior coisa que poderia me acontecer naquele momento. Não era o maior sofrimento, como uma morte de uma pessoa querida, por exemplo. Era uma situação que iria machucar muito o meu ego. Fui observando minha mente criando aquela intriga toda, de como é que a situação aconteceria, com todas as traições e abandonos necessários para gerar tamanha amargura. O mais estranho é que eu percebia que aquilo não era “real”, mas eu tornava aquilo real. Posso dizer que atravessei o inferno da minha própria mente, criado por mim mesmo. Fiquei impressionado e até orgulhoso de ter suportado o meu próprio veneno em tão alta dosagem.

O mais estranho é que eu percebia que aquilo não era “real”, mas eu tornava aquilo real. Posso dizer que atravessei o inferno da minha própria mente, criado por mim mesmo.

A meditação já estava quase chegando ao fim e eu já havia retomado o fluxo de energia pelo corpo. Estava me recompondo de toda aquela toxicidade gerada, quando, eis que minha mente tira lá do fundo algo ainda pior. Não resisto: desabo no choro e cubro o rosto para não ter que olhar os demais participantes.

Pronto, o martírio havia acabado. O choro ajudava a limpar todo aquele tormento causado. O coração amolecia diante do medo do ego de perder todo o seu amor. Era necessária toda aquela experiência. Foi uma aula. A mente que mente. Lembre disto: não confie nela! Ela é ardilosa! Ela é capaz de qualquer tramóia para te provar no final que você está certo. Termino o dia pensando na história do macaco emprestado, conhece? Vou contar:

 

Um homem teve o seu pneu furado em uma estrada deserta à noite. Ao descer do carro e abrir o porta-malas, ele percebeu que havia perdido o macaco. Então, ele avistou uma casinha um pouco longe e resolveu ir até lá pedir o macaco emprestado. Enquanto caminhava, ficou pensando que o dono da casa não atenderia a porta por já estar um pouco tarde, além disto, poderia pensar que ele fosse um bandido. Em sua cabeça o diálogo continuava:

– Vou dizer que sou uma pessoa honesta e que preciso apenas de um macaco emprestado. Não custa eu arriscar, ele vai entender.

Continuou caminhando e pensando. “Mas, mesmo se ele abrir a porta, não vai querer emprestar o macaco pra um desconhecido, pois vai pensar que não vou devolver.”

– Vou dizer a verdade sobre o que aconteceu, alguém deve ter roubado o meu macaco e eu não vi. Só fui descobrir hoje.

Aos poucos, os pensamentos foram ficando mais intensos. “Ele não vai querer emprestar o macaco de graça vai me cobrar uns 10 reais… Mas como ele vai ver que eu estou aqui desesperado ele vai me explorar, acho que vai cobrar uns 30 reais! Se ele levar em conta que não tem mais nada por aqui e que eu estou perdido, vai ser no mínimo uns 200 reais. É lógico que ele vai achar que eu não vou devolver o macaco e assim ele vai ter que comprar um para ele depois. Então ele tem que cobrar no mínimo o preço de 2 macacos, o meu e o dele.”

Os pensamentos negativos continuaram a tomar conta dele e quando finalmente chegou na casinha, tocou a campainha e o dono apareceu:

– Pois não?

– Pois não o car@#$% !!!! Quer saber? Pega o seu macaco e enfia no @#%*!!!!!

 

DIA 9

A barraca e o acampamento

Acordo tranquilo, mas com uma certa ressaca moral. Por que é tão difícil viver o presente momento? Por que temos sempre a tendência de nos manter presos em eventos passados ou ficar fantasiando um futuro que ainda não chegou? Ainda permaneço atônito com as intrigas criadas na minha própria cabeça. O que mais me assusta é a constatação de que milhares de pessoas vivem presas nas suas próprias construções mentais, acreditando que aquilo é a verdade, sem nunca ter um vislumbre da separação em o EU SOU e o EU PENSO. Somente um trabalho de introspecção e observação como a meditação é pode proporcionar isto.

Já não sinto o êxtase da luz de dentro, mas sou ocupado por uma paz quase imperturbável. Me sinto como um Dalai Lama, que parece sempre sereno diante as mais adversas situações da vida.

Me observo. Fico atento para qual vai ser a próxima pegadinha escondida em um dos meus pensamentos. Já não carrego mais a mulher do rio comigo. Consigo virar a página. A cada meditação estou presente em cada respiração e cada segundo. Já não sinto o êxtase da luz de dentro, mas sou ocupado por uma paz quase imperturbável. Me sinto como um Dalai Lama, que parece sempre sereno diante as mais adversas situações da vida.

Então, enquanto deixava a energia fluir pelo meu corpo e notava cada detalhe, comecei a sentir um calor brotando do meu 1º chakra e se alastrar por toda a área pélvica e região sexual (2º chakra). Não adiantava fazer nada, a barraca já estava armada! Eu juro que não estava pensando em nada naquele momento! Foi pura energia, energia bruta! (risos) Com uma certa vergonha, tomei minha decisão e assumi minha postura de meditador Vipassana:  não me mexeria nem um centímetro, custe o que custar. Me permiti sentir a onda de calor e excitação, tendo a certeza de que aquilo tudo seria passageiro. Tudo que sobe, desce (risos). E assim, com o “acampamento desmontado”, retomei minha viagem rumo ao interior de mim mesmo. O calor diminuiu e voltei a me concentrar novamente.

E assim, com o “acampamento desmontado”, retomei minha viagem rumo ao interior de mim mesmo. O calor diminuiu e voltei a me concentrar novamente.

Animosidade

No final do dia, na última meditação, comecei a ouvir um pernilongo bem próximo ao meu ouvido. Lembra dos 5 mandamentos que nos comprometemos no início do retiro? Pois é, um deles era não matar qualquer tipo de criatura viva. Nem mesmo insetos. Durante toda minha estadia eu olhava para o chão tentando não pisar em formigas que estivessem no meu caminho. Não sou radical assim na minha vida cotidiana, mas uma vez que decidi experimentar a técnica eu iria até o fim.

É claro que eu estava de olhos fechados, mas já “enxergava” o que estava para acontecer. Numa situação normal, qualquer um já teria abanado para tentar espantar o sanguessuga. Neste momento eu o sinto pousar na lateral do meu pescoço e seu ferrão adentrar lentamente na minha pele. “Seu filho de uma @#$%!!!!”, grito em silêncio. Rapidamente começo a ficar com calor e suar. Compreendo mais um dos ensinamentos sempre enfatizados pelo Goenka: não gerar animosidade.

Rapidamente começo a ficar com calor e suar. Compreendo mais um dos ensinamentos sempre enfatizados pelo Goenka: não gerar animosidade.

A animosidade é essa excitação, ardor ou calor intensos gerados por fortes emoções. O que não percebemos muitas vezes é que a animosidade pode ser uma estratégia da nossa própria mente para manter o controle do nosso ego. Isto é Vipassana: compreender o funcionamento mais profundo da mente, sem paliativos, sem distratores. A erradicação do sofrimento só é possível quando estamos 100% presentes no momento, entregues à experiência, seja ela qual for. A animosidade parece ser uma reação natural, mas, na verdade, ela te rouba o presente e te joga na AVERSÃO de onde você não quer estar. Ficamos presos na emoção daquilo que não queremos.

Permaneço imóvel. Dentro dos meus parâmetros, passei no teste. Não matei nem mesmo o pernilongo que me picou. Contudo, observo como a raiva que eu senti gerou tanto calor no meu corpo. Percebo que meu autocontrole acontece dentro de um setting (uma configuração) de retiro de meditação e imagino em quantas mil situações não cedemos a raiva e agimos de acordo com o primeiro impulso.

 

DIA 10

Anitchaaaaaaaa

Momentos finais de silêncio. Durante as instruções, ficamos sabendo que após às 11h poderíamos nos comunicar com os outros participantes – fora da sala de meditação! Sinto um certo receio pois gostei muito de ficar todo este tempo calado. Fico com medo de perder toda a calma e paz conquistadas. Mais uma vez a mesma lição: “Tudo é passageiro, não se apegue a nenhuma experiência.”

Assim que escutamos a liberação, minutos antes das 11, um dos homens sai correndo para ser o primeiro a chegar lá fora e grita do fundo da alma: Anitchaaaaaaa*! Todos caem na gargalhada em seguida.

* Anitcha é uma palavra que o Goenka repetia sempre no final das instruções e significa impermanência. Sua origem vem do sânscrito – anitya – e é anterior a existência do próprio budismo. Tudo é impermanente. Enquanto nos apegarmos as coisas materiais haverá sofrimento, este é o ensinamento.

Fico mais alguns minutos me preparando para sair. Escuto o burburinho crescente fora da sala de meditação. Me apronto para a batalha da “vida real” fora desta zona de segurança que eu criei. A partir de agora, o fluxo de energia seria muito mais intenso e difícil de controlar.

Saio da sala e encontro com meu amigo de outras vidas que assentou-se ao meu lado durante todo o retiro. Nos abraçamos fortemente, agradecidos pela presença silenciosa e companheira um do outro.

Outros participantes vem nos cumprimentar e muitas das histórias ficam guardadas para serem compartilhadas em um momento posterior. Começo a falar e escutar. Fico impactado com o prazer que sinto em ouvir minha própria voz! Acho engraçado meu egoísmo e egocentrismo, mas não me culpo. A cada conversa uma alegria enorme de me escutar e poder utilizar o meu corpo para produzir sons. Estava me sentindo como um alienígena que havia acabado de ganhar um corpo humano. Era tudo muito sensorial e puro naquele instante.

A partir dali as meditações seguintes foram marcadas por uma agitação que se percebia por pequenos movimentos e barulhos constantes. Era como se houvéssemos retornado ao primeiro dia. Impressionante como o simples fato de poder falar gerava tanto ruído.

 

DIA 11

O regresso

Cada participante devia organizar seus pertences, tomar café da manhã e partir. Apesar da vontade de conversar, eu tinha uma família com mulher e filha me esperando em casa. A saudade só apertou ainda mais quando liguei meu celular e começaram a chegar vídeos pelo Whatsapp. O sinal estava muito fraco, mas consegui assistir à minha filha (com 2 anos e meio na época) perguntando: “Cadê o papai, mamãe? Eu estou com saudades…” Chorei e aumentei a velocidade da arrumação para sair mais rápido.

 

 

Com tudo pronto e amarrado na moto, coloquei fone, capacete, jaqueta e luvas. Voltei pela estrada que liga Caeté a Belo Horizonte passando por Sabará. Já tinha uma trilha de músicas empolgantes preparada. Cantava com uma imensa felicidade. Me sentia como um explorador retornando de uma expedição para as regiões mais inóspitas da Terra, trazendo consigo importantes informações capazes de alterar o rumo de sua própria existência.

 


Galeria de Imagens

Fotos tiradas no último dia após a liberação da segregação entre os participantes. Clique em qualquer miniatura para ampliar e navegue com as setas do teclado.


Site Official do Vipassana Mundial

Ótimo para consultar datas e localidades dos próximos cursos. O grupo do Facebook que participo é fechado para ex-alunos.
https://www.dhamma.org/pt-BR/about/code

Eliane Brum (Jornalista)

Texto maravilhoso sobre a experiência dela! Queria escrever algo deste nível. Me inspirou antes e depois do Vipassana.
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDR80874-8055,00.html

Reportagem especial do Hypeness

http://www.hypeness.com.br/2015/09/desafio-hype-como-me-senti-quando-passei-9-dias-em-silencio/

The Dhamma Brothers

Documentário fantástico falando sobre a implementação da meditação Vipassana em uma prisão nos Estados Unidos.


Se você ainda não leu, segue a parte 1:


Se você ainda não leu, segue a parte 2:

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