A luz vem de dentro – 10 dias em silêncio meditando 10 horas por dia (parte 2)

DIA 2

Acordo no segundo sino desesperado e grito no escuro com meu companheiro de quarto: “É o segundo sino?” Ele demora alguns segundos, chocado com a cena e responde baixinho: Sim…

Não peço desculpas pois entendo o que acabei de fazer. Nós 2 rimos sem nos olhar e seguimos com a rotina.

Carregando a mulher no rio

Ainda fico pensando sobre o meu erro de ter falado. “Mas foi sem querer…” – eu pensava em seguida. Este é o eterno dilema de pessoas muito perfeccionistas: ficarem presas no erro passado e arriscarem pouco no futuro por medo de errar novamente. Me lembro daquela história dos 2 monges que tem que atravessar o rio carregando uma mulher.

 

Dois monges viviam em um monastério e eram muito amigos, fazendo sempre seus afazeres em conjunto. Devido ao seu voto celibatário havia uma regra de que um homem nunca deveria tocar uma mulher.

Certo dia, os dois se depararam com uma mulher jovem e bonita que estava com dificuldades para atravessar o rio. A mulher, humildemente pede ajuda e um dos monges diz:

– Infelizmente não podemos ajudá-la pois fizemos um voto de que não poderíamos tocar em mulher alguma.
O outro monge, após refletir um pouco replica:
– Entretanto, também fizemos voto de ajudar a todas as pessoas e criaturas deste mundo, sem haver distinção.

Em seguida, ele coloca a mulher nas suas costa e atravessa o rio.

Os dois seguem caminho e permanecem durante um bom tempo em silêncio. Após algumas horas, ainda pensando sobre o acontecimento, o primeiro monge diz:

– Você não devia ter carregado aquela mulher…

O segundo monge ri e calmamente responde:

– Eu a carreguei e a deixei na outra margem do rio quilômetros atrás. E você ainda a está carregando.

 

Quantas vezes na vida não continuamos carregando a mulher do rio? Nessa hora me veio o insight que o mais importante não era não falar e ficar em silêncio. O mais importante era usar a ferramenta do silêncio verbal para silenciar a mente. Não adianta nada ficar calado se a sua mente não para de falar! Não adianta você ir para o lugar mais calmo do mundo se você continua carregando todos os seus problemas junto com você!

Continuo o meu dia mais aliviado e menos culpado pelo meu “erro”. Outras preocupações mais importantes e imediatas apareciam ali: a dorzinha do primeiro dia começava a crescer e eu ainda não tinha encontrado uma posição que conseguisse permanecer tanto tempo sem me incomodar. Formigamentos na perna e algumas dores nas costas e ombros começavam a surgir. Conseguia me manter imóvel de 20 a 30 minutos, mas aí a dor surgia e eu acabava mudando de posição.

Formigamentos na perna e algumas dores nas costas e ombros começavam a surgir.

No final do dia, mais uma vez, eu só queria dormir. Não desejava pensar em nada, apenas descansar. Troquei de roupa, me enrolei nas cobertas e em poucos segundos apaguei.

DIA 3

Decido fazer a primeira meditação do dia no meu próprio quarto. Acordo 4:15, escovo os dentes lavo o rosto e 4:30 eu assento em uma cadeira enrolado no meu cobertor. 5:30 faço meu intervalo, bebo água e vou para a sala de meditação. Sem querer, acabo criando uma rotina que me salvou no final: variar minhas posições de meditação para aliviar as articulações.

Durante a maior parte do dia me assento na posição clássica com as pernas cruzadas e assentado sobre uma almofada mais dura. Contudo, descubro que consigo permanecer bastante tempo assentado sobre os calcanhares e com o joelho dobrado, como se estivesse rezando. Para isto, coloco uma almofada abaixo do meu tornozelo e 2 almofadas entre os calcanhares e minha nádega. Vejo outros participantes olharem para mim incrédulos, como se eu estivesse pagando alguma penitência. Apesar de tudo, me sinto bem e a variação me traz alívio de determinadas dores.

DIA 4

Start Again

Finalmente entramos na técnica Vipassana propriamente dita. Até então estávamos praticando ou outra técnica chamada Anapana que era uma espécie de preparação para auxiliar nossa capacidade de manter a concentração. Eu já estava achando aquilo tudo incrível, pois havia ficado horas percebendo o ar que passava pelas minhas narinas e cada vez mais minha percepção do que eu achava que conhecia, se expandia. É claro que em vários momentos eu me desconcentrava e me perdia em outros pensamentos, mas a técnica era clara: comece novamente (start again!).

Comece novamente. É quase um mantra. Errou? Não se preocupe, comece novamente. Boiou? Não se preocupe, comece novamente. Viajou? Não se preocupe, comece novamente. O pensamento é um fluxo e não conseguimos interrompê-lo, mas toda vez que a correnteza toma um rumo inesperado é possível puxá-la de volta para o seu trajeto. Os budistas se referem a isto como The Monkey Mind (a mente de macaco) pois os pensamentos ficam pulando de galho em galho.

Durante as palestras no final do dia, era reproduzido um áudio gravado e traduzido para o português onde eram transmitidos os ensinamentos do grande precursor desta técnica para o ocidente, S. N. Goenka. Sempre irreverente ele discorria sobre alguns ensinamentos do budismo, sem ser dogmático, pois esta não era uma filosofia religiosa e sim uma técnica que todas as religiões poderiam se beneficiar sem romper em nada com suas filosofias.

Criamos uma reação de APEGO ou AVIDEZ em relação as situações prazerosas e uma reação de AVERSÃO ou REPULSA as situações desprazerosas.

O principal ensinamento era: a mente percebe, interpreta e categoriza as diversas emoções / sensações / experiências – desde as mais sutis até as mais grosseiras – e as divide em 2 blocos: aquilo que me gera prazer, bem-estar, satisfação, e aquilo que me gera desconforto, dor, incômodo. A partir desta cisão e tendência dualista, criamos uma reação de APEGO ou AVIDEZ em relação as situações prazerosas e uma reação de AVERSÃO ou REPULSA as situações desprazerosas. Portanto, se eu gosto de uma coisa, eu quero mais dela e desejo permanecer naquilo que é gostoso, se eu não gosto, eu fujo e não quero entrar em contato. E pela vida afora vamos repetindo esse comportamento que Freud chamava de princípio do prazer. Apesar de ter estudado isso na Psicologia, achei tão clara e simples a explicação budista que fiquei impressionado.

Com o tempo, o poder de concentração ia aumentando cada vez mais e mesmo os desconfortos das dores já eram suportados por mais tempo do que no início. O segredo era focar toda a atenção no presente momento sem emitir julgamentos de valor.

DIA 5

Agora já podia ser considerado um meditador Vipassana. Já estava praticando a técnica. Uma coisa era ficar concentrado apenas na região do nariz e ficar prestando atenção no ar que entra e sai. Outra era fazer uma espécie de escaneamento do corpo inteiro e tentar perceber uma gama enorme de sensações que eram emitidas. Era como se eu tivesse aprendido a velejar numa lagoa e de repente tivesse sido apresentado ao mar.

Pode parecer bobo falar assim, mas realmente fui descobrir um universo dentro de mim através da coisa mais elementar: a minha própria respiração.

Se meu corpo é meu barco, meu nariz então é meu timão. Para não me perder no meio do oceano de possibilidades que se apresentavam, minha atenção sempre voltava ali: no ar que passa pelas minhas narinas, na ponta do meu nariz. Pode parecer bobo falar assim, mas realmente fui descobrir um universo dentro de mim através da coisa mais elementar: a minha própria respiração. Aquilo ali era a chave de tudo. Se perdeu? Então volte sua atenção para a respiração e observe.

Outra coisa que começava a ficar clara é que algumas dores eram passageiras. Vinham e perduravam pouco tempo e já se despediam. Enquanto isto, outras permaneciam e eu já estava bastante preocupado. Meu joelho doia tanto quanto quando percorri o caminho de Santiago de Compostella.


Confira também o relato desta experiência emocionante:
http://www.felipeataide.com/900km/


Na palestra o Goenka dizia que todas as dores são passageiras. Tudo é passageiro! Essa vida é passageira. Uma coisa é você entender intelectualmente, outra coisa é vivenciar isto na prática. Experimente conversar com uma pessoa que está agonizando de dor e lhe diga que a dor é passageira e veja o que acontece…

Brincadeiras a parte, tente fazer o contrário: reflita sobre como tudo é passageiro, mesmo a dor (principalmente se você não está sentindo um enorme incômodo neste momento). Medite sobre este assunto. Reflita novamente. Pratique. De repente, você começa a perceber que sua “tolerância a dor” aumenta. A dor não diminiu, nem você ficou mais forte. Mas alguma coisa mudou, pois parece que não está doendo tanto.

Não gosto muito desta palavra “tolerância” pois dá uma conotação masoquista, como se a gente quisesse ficar lá sofrendo, sem fazer nada para modificar aquilo que está gerando desconforto. Entretanto, o que está em jogo aqui é compreender que muitas vezes o incômodo maior não é a dor em si e sim a aversão gerada pela mente, seguida por “falas” incessantes dentro da nossa cabeça.

DIA 6

Dor e sofrimento: o conceito e a experiência

There’s a difference between knowing the path and walking the path (Há uma diferença entre conhecer o caminho e percorrer o caminho) dizia o personagem Morpheus do filme Matrix. Posso estudar tudo sobre um assunto mas existe um grande contraste quando eu decido experimentar na prática.

Perceber, sentir, não julgar, não se apegar ou criar uma aversão em relação às experiências era lindo! Permaneça equânime, dizia o Goenka. Mas meu joelho estava doendo muito!

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Foi então que tive o que chamo de meu momento Matrix: descobri meus verdadeiros poderes e consegui congelar as balas de revólver no ar. Estava totalmente entregue na meditação, mesmo com as dores quando, de repente, tudo ficou suspenso durante uns 20 ou 30 minutos. Eu juro, foi uma sensação de parar o tempo. Todas as dores pararam. Era como se o corpo estivesse ali, parado e a conexão com a dor tivesse sido interrompida. Foi incrível!

A dor é um mecanismo do corpo enquanto o sofrimento é um mecanismo da mente.

Neste instante, outro conceito budista ficou claro: existe uma diferença entre dor e sofrimento. A dor é um mecanismo do corpo enquanto o sofrimento é um mecanismo da mente. Eu posso sentir dor sem necessariamente estar sofrendo tanto com aquilo. Assim como eu posso estar sentindo pouca dor e gerar um sofrimento muito maior do que o necessário (Se é que algum sofrimento é necessário…). Segundo o próprio Buddha, a técnica Vipassana tem o objetivo de erradicar (é essa palavra mesmo!) o sofrimento, pois trabalha num nível mais profundo da mente.

Hora do intervalo. Volto a atenção para o meu corpo e quase não consigo me levantar. Minhas pernas estão totalmente dormentes. Demoro alguns minutos para retomar a circulação. A dor retorna. Não houve mágica. Contudo, diria que ela volta com 50% da intensidade. Me vem uma certeza que deste momento em diante a dor vai passar. Me sinto confiante de que o pior já passou.


Se você ainda não leu, segue a parte 1:


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