A luz vem de dentro – 10 dias em silêncio meditando 10 horas por dia (parte 1)

Uma energia intensa descia pelo topo da minha cabeça. Era muito forte. De repente comecei a enxergar tudo branco. Uma sensação de paz e prazer enormes. Seria a iluminação? Claro que não, pensei. Ainda tenho muita coisa para aprender nessa vida. Será que estou ficando louco? Também não, estou mais lúcido do que o normal. Já passou das 18:30 e estamos em julho. É inverno. De onde vem essa claridade toda? Será que abro o olho para conferir? Se abrir pode ser que corte “o barato”. Bom, então vou permanecer de olhos fechados e continuar aqui “curtindo esse negócio”! Que coisa mais linda! Como faço para ter isso de novo? Será que se eu contar para outras pessoas elas vão acreditar? Como descrever sensações muito mais amplas do que as palavras dão conta? Quero continuar neste lugar. O corpo está leve e meu mundo está em paz.

Seria a iluminação? Claro que não, pensei. Ainda tenho muita coisa para aprender nessa vida. Será que estou ficando louco? Também não, estou mais lúcido do que o normal.

São 19h. Pausa para intervalo rápido antes da palestra do professor. Olho para os outros participantes. Teriam eles sentido as mesmas sensações que eu tive ou ainda estariam presos no inferno das dores dos primeiros dias? Ainda tenho que esperar mais 2 dias e meio para poder perguntar.

 

Eu ainda estou aqui.

Meu corpo já não dói tanto.

Minha mente tagarela já não reclama mais.

Eu estou em paz.

 

A preparação

 

Sempre tive o desejo de fazer um retiro em silêncio e ter um espaço onde pudesse realmente me observar sem ter todas as distrações da vida cotidiana, mas achava uma ideia quase impossível. Também pensei em fazer um processo menos radical, como um retiro de Yoga, com várias práticas corporais, meditação e alimentação vegetariana. Ficar zen! Este era o principal objetivo.

Foi então que um amigo me falou sobre uma técnica milenar chamada Vipassana. Segundo dizem, foi transmitida pelo próprio Buddha há mais 2300 anos atrás e é praticada na íntegra até hoje. Para dizer o mínimo, aquilo ali me pareceu bem exótico e sectário ao mesmo tempo. Contudo, pensem comigo, se o Buddha demonstrou a técnica de meditação e milhares de pessoas passaram pelo processo durante milênios, eu devo, pelo menos procurar saber do que se trata.

Quando mais eu lia e assistia documentários, mais eu ficava intrigado. Eu via os relatos e depoimentos, depois as pessoas com os olhos fechados, mas não explicavam exatamente qual era a técnica e o que elas estavam fazendo. Teriam mantras? Visualização? Para onde estaria voltada sua atenção?

Já vinha praticando algumas meditações por conta própria há mais ou menos um ano e meio. Mas não tinha um técnica definida e cada dia fazia um pouco diferente. Apesar da aparente inconstância, eu conseguia manter a prática quase diária (5 a 6 vezes por semana). Queria aprofundar, mas não sabia exatamente que caminho seguir. Já estava no mês de abril de 2016 e o retiro aconteceria em julho. Fiquei sabendo que era comum as vagas se esgotarem rápido e logo fiz minha inscrição.

 

A chegada

 

Fui para um centro de meditação Vipassana no município de Caeté próximo a Belo Horizonte. O local era uma pousada e foi alugado para a realização deste curso durante o período de julho de 2016. Chegando lá meu primeiro choque: imaginava encontrar um monte de pessoas mais velhas com cara de monges tibetanos (sim, eu também tenho meus preconceitos!) e o que vi foram várias pessoas jovens e bonitas!

25 homens e 50 mulheres foram os participantes, com apenas 2 desistências no final. O local era afastado da cidade e foi adaptado para seguir a técnica: homens e mulheres deveriam ficar separados e sem contato algum durante todo o período do curso. Para isto, a organização utilizou tecidos e tapumes separando os 2 blocos, impedindo assim o contato visual entre os membros do sexo oposto.

Preenchi os papéis e um termo de compromisso contendo 5 preceitos básicos:

  1. Não matar qualquer criatura (nem mesmo um inseto)
  2. Não roubar
  3. Não realizar nenhuma atividade sexual (Nem mesmo sozinho no chuveiro, hahaha!)
  4. Não mentir
  5. Não utilizar nenhum tipo de intoxicante (drogas, álcool, remédios, etc.)

A partir dali não tinha mais volta, agora era eu comigo mesmo e meu companheiro de quarto com o qual eu não poderia me comunicar.

Em seguida, veio o meu segundo choque e a realização de onde eu estava entrando. Peguei todos os meus pertences que pudessem gerar algum tipo de distração e coloquei dentro de uma sacola confiscada na entrada. Foram eles: carteira, celular, câmera fotográfica, caderno de anotações, caneta e um livro (nem sei porquê eu levei). A partir dali não tinha mais volta, agora era eu comigo mesmo e meu companheiro de quarto com o qual eu não poderia me comunicar.

Peguei todos os meus pertences que pudessem gerar algum tipo de distração e coloquei dentro de uma sacola confiscada na entrada.

Depois de acomodar as coisas no quarto fomos receber algumas instruções e em seguida jantar nos lugares demarcados para cada participante. Fiquei pensando em como aquilo ali parecia um acampamento militar e comecei a questionar se eu daria conta até o final.

Ainda estávamos autorizados a falar, pois o regime de silêncio começaria apenas no dia seguinte à partir do primeiro minuto do dia. Mesmo assim, os demais participantes pareciam estar atônitos, quase sem reação. A concentração estava no percurso ainda por vir: 9 dias e meio em silêncio, pois seríamos liberados para falar novamente na metade do último dia.

 

A abertura dos “portões”

 

Eu e meu cobertor gigantesco para me salvar do frio. (Foto tirada em casa posteriormente)
Eu e meu cobertor gigantesco para me salvar do frio. (Foto tirada em casa posteriormente)

4:15 da manhã tocou o primeiro sino. 4:25 tocou o segundo sino. Todos deveriam estar meditando às 4:30. Cada participante podia escolher entre meditar no quarto ou ir para a sala de meditação nas 2 primeiras horas. Fazia tanto frio na sala de meditação que eu me enrolei como pude no meu cobertor tentando manter minha concentração e calor corporal. Aos poucos, os demais participantes foram chegando e a sala foi se aquecendo. A cada uma hora de meditação, havia um intervalo de 5 mins para esticar as pernas, ir ao banheiro e tomar uma água. A cada retorno olhávamos para uma placa na porta com o escrito:

DIA 1

Até o final manteríamos a contagem regressiva com os dias na porta. Sem televisão e nenhum dos itens pessoais seria fácil de esquecer que dia estamos. Para falar a verdade, eu nunca tinha pensado isto. Apenas olhava para a placa e achava graça.

Fazia tanto frio na sala de meditação que eu me enrolei como pude no meu cobertor tentando manter minha concentração e calor corporal.

Depois do café da manhã, comecei a lembrar que, durante minhas práticas em casa, eu tinha conseguido meditar no máximo 1 hora direto, sem mexer e sem interrupções. Já considerava aquilo um grande feito. Contudo, agora eu estaria meditando 10 horas por dia durante 10 dias. É como um corredor inexperiente resolver correr uma maratona. Vai ser difícil, mas se ele souber dominar sua mente, tudo é possível, não é não?!

Na parte da tarde eu já estava um pouco mais agitado. Alguns incômodos de ficar muito tempo assentado começavam a surgir. Será que se eu trocasse a almofada ou mudasse a posição seria melhor?

Parabéns! Agora podemos ir embora. Esta era a minha resistência falando e eu estava apenas no início da montanha

Depois da palestra do professor e a última meditação eu só pensava em ir para cama. Uma voz dentro de mim dizia: você já fez o suficiente, já veio aqui e já viu como funciona. Não tem nada demais. Parabéns! Agora podemos ir embora. Esta era a minha resistência falando e eu estava apenas no início da montanha. O pior ainda estava por vir. Mesmo tendo conseguido superar todas as dificuldades e ter tido experiências maravilhosas, não sei precisar o que me manteve ali.

DIA 2

Acordo no segundo sino desesperado e grito no escuro com meu companheiro de quarto: “É o segundo sino?” Ele demora alguns segundos, chocado com a cena e responde baixinho: Sim…

Não peço desculpas pois entendo o que acabei de fazer. Nós 2 rimos sem nos olhar e seguimos com a rotina.


Continue lendo a parte 2:



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Livro excelente para quem quer começar a meditar.

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Este é um livro excelente para quem quer começar a meditar ou indicar para a família entender um pouco o que se passa na cabeça de um meditador. Conta a história de um repórter cético que tem uma crise de abstinência de droga num programa ao vivo e depois procura respostas para o seu problema. O interessante é que ele tem um podcast homônimo ao livro e entrevistas pessoas famosas que praticam algum tipo de meditação e impacto na vida delas.

2 comentários em “A luz vem de dentro – 10 dias em silêncio meditando 10 horas por dia (parte 1)

  1. Felipe, meu marido é doido para passar por essa experiencia. Fiquei curiosa e acho que não daria conta. Mas tudo é válido. Quem sabe eu possa começar a ler a respeito e ir treinando primeiro,rs. Depois quero saber como participar. Abraços

    1. Oi Beth! Eu, particularmente, acho qualquer experiência com meditação válida. Tem várias técnicas excelentes e cada uma vai ter uma abordagem que prioriza um aspecto. Acredito que a gente deva experimentar e ver onde nos sentimos mais a vontade. A meditação, muitas vezes, é um processo que a gente vai sentindo os benefícios aos poucos. Não é muito claro. Minha sensação em relação a essa técnica, o Vipassana, é que ela me adiantou pelo menos uns 5 anos de prática.

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